por Karen Acioly
...Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. (BARROS, 2001, p. 35)
A infância é o lugar da mais intensa e decisiva busca de identidade. Desde cedo é inevitável e necessário perceber o mundo, decodificar os sentidos e tentar compreender o estranho e curioso universo ao nosso redor.
Aprender a respirar, ver, ouvir, tocar, experimentar é o aprendizado que estimula todos os demais. A criança descobre necessidades, desejos, medos, desconfortos e frustrações. Descobre o próprio corpo, o meio ambiente. Descobre os outros e a si mesma. A linguagem vai se formando aos poucos, palavra por palavra, gesto a gesto. O brincar, que é mimese e abertura para os conhecimentos, permite a interiorização dos códigos sociais e sua compreensão, para aceitar ou recusar esses códigos. Para, aos poucos, construir sua própria identidade.
Atriz, dramaturga, diretora, autora e produtora cultural, formada em Comunicação e pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior. Idealizadora e curadora do FIL (Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens), já em sua 14a edição (Prêmio Especial Zilka Salaberry, Menção Honrosa 2015). É também a criadora, idealizadora e diretora artística do Centro de Referência Cultura Infância, onde construiu por 12 anos, no Teatro Municipal do Jockey, vários projetos de sensibilização e formação de público, nas mais variadas linguagens artísticas. Dentre seus 15 livros publicados, foi premiada como autora pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, como Melhor Livro de Teatro pelos títulos: Tuhu, o menino Villa-Lobos (2008), Os meus balões (2010), Viva o Zé Pereira (2012), A excêntrica família Silva (2014/Hors Concours). Organizou ainda o I Catálogo Livre do Teatro Infantil (2009) e o II Catálogo Livre Cultura Infância (2014). Até o momento tem 31 textos escritos para o teatro infantojuvenil, sendo 28 deles já encenados e dirigidos por ela. Desenvolve vários projetos de sensibilização e formação de plateias há 30 anos.
Por que oferecer encantamento?
A criança, em seu cotidiano ou na escola, constrói as referências da sua própria vida. Ela será aquilo que conseguirmos oferecer: curiosidade afiada, senso crítico alerta aos perigos, construindo seu próprio juízo para tomar decisões, escolher critérios, potencializar o conhecimento, a descoberta e as experiências transformadoras.
Nesse contexto, a educação e a cultura, através da afetividade e o estímulo à criatividade são valores seguros, estratégicos e preventivos. Assegurar à infância e à adolescência o acesso a bens culturais, à experiência da arte e ao seu desenvolvimento pleno é dever do poder público e da sociedade civil. As crianças, adolescentes e jovens representam hoje basicamente 32% da população; e significam uma parcela vulnerável de nosso país. É responsabilidade dos adultos proteger os direitos das crianças e adolescentes. A arte – em todas as suas dimensões – é um direito da criança e do adolescente.
Razões para implementar uma política para a cultura infância?
O artigo 31.2 da Convenção sobre os Direitos da Criança da Unicef (1989), estipula que “Os Estados membros respeitam e favorecem o direito da criança em participar plenamente da vida cultural e artística, incentivando a organização, em seu benefício, dos meios apropriados de lazer e de atividades recreativas, artísticas e culturais, em condições de igualdade”.
O Estado tem a responsabilidade de estabelecer as bases de acessibilidade às artes profissionais para crianças e adolescentes em uma frequência assídua, considerando o fato de que a criança, para ter acesso à arte, é dependente das decisões dos adultos, no âmbito familiar ou escolar.
Por incrível que pareça, crianças e adolescentes de nosso país – aproximadamente 60 milhões de brasileiros – não parecem estar atendidos no que estipula a Unesco.
Sendo a mistura cultural gênese da identidade das diversas infâncias brasileiras – sejam elas indígenas, afro-descendentes, urbanas, ribeirinhas – e, considerando a infância determinante na vida de qualquer cidadão, faz-se necessária e urgente a implementação da Cultura Infância em todo o país, como fator transversal, multidisciplinar e mesmo estratégico.
Não há no Brasil uma ação institucional que preserve os diversos patrimônios imateriais e simbólicos da infância que são determinantes na vida, nas escolhas e na memória de qualquer cidadão de qualquer nacionalidade.
A inserção da Cultura Infância, nas diversas instâncias governamentais; no Plano Nacional de Cultura (PNC), no Plano Estadual de Cultura e no Plano Municipal de Cultura possibilitará que se erga uma política pública de Estado, reconhecendo, respeitando e favorecendo o protagonismo da infância. Entendendo a infância para além do recorte etário, como característica humana, patrimônio afetivo e simbólico que entrecruza a vida de todos, independente de etnia, gênero, religião, nível socioeconômico, moradia, características físicas, modos de ser, agir, pensar e estar no mundo.
Assim, a Cultura Infância volta-se para afirmar a cidadania enquanto busca de uma identidade cultural brasileira, marcada pela diversidade de vivências, apostando na sensibilização e formação continuada de novos protagonistas, assim como instrumental para a prevenção de mazelas sociais tais quais violência, erotismo infantil, consumo e “adultização” precoce das crianças.
O investimento na Cultura Infância significa entre outras coisas dignificar a vida e a economia de um país. Investir de maneira transversal e multidisciplinar na formação cultural necessária na infância é a melhor forma de semear valores e princípios éticos fundamentais, no entendimento do que seja a construção de uma sociedade mais solidária e mais justa.
Um grupo de profissionais de várias linguagens e segmentos artísticos e representativos da sociedade civil – Grupo Nacional Cultura Infância – de reconhecida atuação na área, das cinco regiões do país, apresentou, após dois fóruns nacionais (I e II Fórum Nacional Cultura Infância/Centro de Referência Cultura Infância Rio de Janeiro/Teatro do Jockey), proposta de criação e implementação, no âmbito do MinC, SNC e das demais esferas governamentais, de uma política de estado – transversal e multidisciplinar – para a Cultura Infância.
São objetivos principais dessa política: oferecer e garantir condições para a irradiação da Cultura Infância; propiciar a descentralização e a difusão das atividades; promover a implantação, acompanhamento e sustentabilidade do plano (inclusive espaços físicos e recursos orçamentários); sensibilizar e incentivar a formação de público infantil e juvenil para a atuação como novos protagonistas; fortalecer a diversidade de linguagens culturais e a busca articulada de novas práticas educativas.
“Lugar de criança é também no orçamento e nas decisões” e, por isso, é fundamental a destinação de recursos orçamentários para a Cultura Infância e “lugar” no Conselho Nacional de Políticas Culturais e nos Conselhos Estaduais e Municipais de Cultura. A destinação de tais recursos e o assento da Cultura Infância em lugar estratégico de decisões, podem ser a base para a implementação dessa política nas vertentes Patrimonial e de Ação Cultural, envolvendo pesquisa, criação, circulação, difusão e fomento. É possível criar assim sistematização articulada e plural de forma a viabilizar a inclusão e participação ativa de TODAS as crianças brasileiras, como produtoras de conhecimento, com lugar, vez e voz em nosso país.
Da necessidade da arte
A arte significa, tanto no plano individual quanto no coletivo, o acesso ao bem-estar e a inclusão como membro criativo de uma sociedade. As artes representam então um poderoso vetor de coesão social e de construção da cidadania na aquisição de valores humanos. O “espaço” ao desenvolvimento da criatividade pode ser o possível “pulo do gato” na construção de um novo olhar sobre o país e uma nova forma de entender a economia a curto, médio e longo prazos.
Do diagnóstico
Apesar de toda a importância óbvia da Cultura Infância, a compreensão do “lugar” que ela pode ocupar nas esferas governamentais, é ainda bastante incipiente. Qual é o lugar simbólico e real que a Cultura Infância ocupa em nossas cidades e no país?
Breve histórico da idealização à criação do Centro de Referência Cultura Infância
Na gestão municipal de Ricardo Macieira e Miguel Falabella, tive o privilégio de, em 30 de março de 2003, criar e apresentar o programa do Centro de Referência do Teatro Infantil a ser implementado no Teatro Municipal do Jockey. A iniciativa, pioneira na ocasião, abriu portas para, em 2009, ampliar a missão de sensibilizar e formar novas plateias, considerando então a necessidade de incorporar diversas linguagens artísticas. O Centro de Referência do Teatro Infantil passou a se chamar Centro de Referência Cultura Infância, abrigado no Teatro Municipal do Jockey. Tal ideia surgiu a partir de uma reflexão decorrente da I Oficina de Políticas Públicas para a Cultura Infância, realizada pelo MinC em 2008, em que todos os participantes perceberam a necessidade de que fossem ampliadas as ações envolvendo as crianças, para além do teatro.
A missão do programa é a de potencializar, assegurar, dinamizar projetos e ações voltados para o público infantil e familiar, valorizando, sobretudo, a diversidade de linguagens artísticas. Além disso, há investimento na capacitação de agentes da cultura infância para a multiplicação nas comunidades, grupos, cooperativas e produções culturais.
Em 2015, após o fechamento do Teatro do Jockey, o Centro de Referência Cultura Infância procura um novo lugar, de preferência, com muita natureza ao redor e que possa ser destinado às crianças na cidade do Rio de Janeiro, mantendo os seguintes propósitos:
- O desenvolvimento/exercício da cidadania cultural de crianças.
- A promoção da diversidade de linguagens e a busca de novas práticas educativas.
- A elaboração de políticas públicas para crianças, mediante a ampla participação dos diversos segmentos artísticos e culturais envolvidos.
- A ampliação da transversalidade das políticas para o público infantil sobre o conjunto das políticas culturais do município.
- A formação de público infantil e de jovens na cidade do Rio de Janeiro.
Com este trabalho, foi possível e será ainda mais divulgar novos criadores, autores, diretores, artistas visuais, músicos, artistas circenses, bonequeiros, entre outros, sensibilizando o público e artistas, formando novas plateias e atuar também como um núcleo de ações e programas transversais para os equipamentos culturais do município do Rio de Janeiro.
Menciono aqui este trabalho, em nome de vários profissionais que construíram essa história, para mostrar como uma iniciativa da sociedade civil pode estar em sinergia com a cidade, com o que é possível fazer para atuar junto à infância, formando novos públicos tocados pelo encantamento que a cultura e o conhecimento proporcionam. O programa se prolonga ainda hoje atuando nas vertentes de memória histórica e de ação da cultura, envolvendo pesquisa, criação, circulação, difusão e fomento. Em 2012 o projeto obteve o reconhecimento da Revista Época/Editora Globo na categoria Cultura como melhor programação para crianças da cidade do Rio de Janeiro, ganhando o prêmio “O melhor do Rio de Janeiro 2011/2012”.
Com a apresentação de mais de 885 espetáculos (nacionais e internacionais), além de oficinas, residências artísticas, exposições e ações formativas, conseguimos a média anual de 34 mil espectadores num teatro de apenas 135 lugares.
Chegamos a 2015 com 12 anos de atividades ininterruptas. Atingimos um público de 445 mil espectadores a preços populares ou com entrada franca, em atividades dentro e fora do espaço.
Por conta da existência deste “lugar”, o CRCI propôs para o Minc, no I e II Fórum Nacional Cultura Infância, realizados respectivamente em 2014 e 2015, a identificação e capacitação de 100 Centros de Referência em todo o país, a começar pela criação de cinco Centros de Referência Cultura Infância (um em cada região), estendendo-se progressivamente a cada uma das 27 unidades da federação. Propomos também a criação de um Centro de Referência Cultura Infância Nacional, como matriz e centro aglutinador de todos os outros centros.
Dessa forma, cria-se a sistematização, o acesso e a circulação dos bens culturais, amplia-se a rede de conhecimento e desenvolvimento da Cultura Infância e fomenta-se o acompanhamento qualitativo da implementação de uma política pública para que exista finalmente o reconhecimento do importante “lugar” da criança como produtora e consumidora de cultura.
É importante por fim ressaltar que só se ama o que se conhece. É uma dinâmica bem simples: não há como amar e transmitir cultura, se não houver acesso a ela. É necessário oferecer meios de proporcionar o estímulo ao imaginário, a elaboração dos afetos, do conhecimento e do acolhimento. Naturalmente, princípios positivos como respeito, dignidade, solidariedade e paz, farão parte do cotidiano de nossos cidadãos.
É urgente a implementação de uma política pública de Estado para a Cultura Infância. Com certeza, colheremos a curto, médio e longo prazos transformações positivas no – até então – estranho, inexplicável e – infelizmente – injusto mundo dos adultos.
FIL (Festival Internacional de Intercâmbio de Linguagens): princípios de escolha e difusão
Em 14 anos de continuidade e experimentações, o FIL (Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens), primeiro festival multidisciplinar internacional dedicado a todos os públicos na cidade do Rio de Janeiro, elaborou reflexões fundamentadas nos anos de prática curatorial que vem ao encontro da implementação de uma política pública de Estado voltada para a sensibilização e formação de novas plateias.
Exercício de uma política para a infância
A ideia do nosso festival é pensar e repensar o conceito de qualidade na produção de conteúdo das artes integradas. O FIL pressupõe e deseja que as atividades selecionadas para cada edição façam contato direto com seu público e entendam que a criança pode ser protagonista na produção do conhecimento, mesmo que para isso o adulto seja a ponte para a transmissão desse conhecimento.
O FIL considera ainda que o público-alvo participa e viva em diversas realidades diferentes. Dessa forma, valoriza mecanismos e atrações que promovam o debate acerca de temas de relevância nacional e internacional.
As atrações selecionadas para o FIL devem compreender ainda o desenvolvimento da consciência crítica e estética do cidadão – independente de sua idade – estimulando assim a inteligência, o respeito aos valores humanitários, éticos e sociais, pessoais e familiares.
Dessa forma, o festival é sempre inventado, a cada ano, como uma “obra de arte em si mesma”. Incentiva, ininterruptamente, o público a unir seu gosto inicial aos novos gostos a serem descobertos. Após 365 espetáculos de diferentes nacionalidades, além de ateliês, mesas-redondas, rodas de conversas, processos de criação abertos ao público, o FIL tornou-se também um lugar de compartilhamento de conhecimentos, de sinergias e conexões entre linguagens aparentemente distantes.
O FIL entende qualidade como princípio vital relacionado à promoção de liberdade, de pensamento crítico, criativo e independente, de diversidade e de cidadania.
Bases e objetivos de sua programação, atrações que:
- Façam respeitar os Direitos Humanos e que repudiem qualquer forma de discriminação, preconceito, violência, opressão, manipulação e autoritarismo.
- Valorizem a memória, o patrimônio ambiental e cultural e a identidade brasileiras, bem como a memória e a identidade das pessoas, famílias, comunidades e grupos diversos que compõem a identidade brasileira.
- Conteúdos que abordem com inteligência e delicadeza “temas tabus” (como guerras, poder, violência doméstica, morte, pedofilia, gravidez precoce, prevenção sexual) que possam ajudar no crescimento da criança no injusto mundo dos adultos.
- Viabilizem a formação do pensamento crítico acerca dos aspectos políticos, éticos e estéticos envolvidos nos processos de produção e circulação de informações e mensagens no cenário sociocultural.
- Priorizem o protagonismo infantil e juvenil proporcionando o diálogo, a escuta e a fala da criança/jovem de hoje.
- Incentivem o desenvolvimento de novos formatos, através de laboratórios permanentes de criação.
- Inovem o uso dos recursos tecnológicos mais atuais, através do diálogo entre diferentes plataformas de mídia e de recursos como interatividade e propostas de diálogos transmidiáticos da cena contemporânea.
Por fim, o FIL considera que tais critérios possibilitem um contato simples, direto e poético com os seus diversos e variados públicos.
A cada ano, temos a alegria de dizer, como na primeira vez:
Bem-vindos aos mundos do FIL!
Referências:
ACIOLY, K. (Org.). II Catálogo Livre Cultura Infância: com passeios pedagógicos. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 2014.
BARROS, M. Tratado geral das grandezas do ínfimo.
Rio de Janeiro: Record, 2001.
UNICEF. A convenção sobre os direitos das crianças. 1989. Adaptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas em 20 de novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de setembro de 1990.
Fonte: Catálogo Palco Giratório Circuito Nacional 2017
Palco Giratório : circuito nacional / Sesc, Departamento Nacional. – 2013- . Rio de Janeiro : Sesc, Departamento Nacional, 2013-.
v. : il. ; 24,5 cm.
Anual.
Curadoria: Rede Sesc de Intercâmbio e Difusão de Artes Cênicas.
ISSN 2317-1596
1. Palco Giratório – Catálogos. 2. Artes cênicas – Brasil. I. Sesc. Departamento Nacional.